19.5.06

Cortar o cabelo

Parte II- Onde se fala da visita e se dá conta das sensações vividas. Onde se introduz na trama a personagem T.

Entrei no dito cabeleireiro, que doravante designarei como o estabelecimento, que é um termo mais neutro e não mexe com a minha já de si debilitada e ferida masculinidade. Ora então, já dentro do estabelecimento, dei por mim dirigindo-me para o balcão de atendimento, como um touro para a lide que desconhece ou um inocente a assobiar para o cadafalso. Parei e olhei em volta. Para início de conversa tudo o que era expositores e estantes estavam cheios de produtos como rimels (?), batons, ceras depilantes, geles fixantes e outras merdices tais. Como se isto já não fosse suficiente o estabelecimento estava cheio de mulheres. Havia altas e baixas e magras e gordas. Havia adolescentes e mulheres em idade parideira e mulheres pós-menopaúsicas com cara de fãs do Júlio Iglésias. Havia uma criança, também ela do dito cujo sexo, que corria impaciente de um lado para o outro espalhando as suas barbies(?) ao deus dará. Havia uma noiva, santo deus. Mulheres a fazer madeixas, mulheres a fazer permanentes, mulheres na manicure, na secagem do cabelo e enroladas em papel de prata como se fossem um legume no frigorífico. Lia-se a Caras, a Vogue, a Nova Gente, as televisões estavam todas sintonizadas no canal Fashion. Falava-se de roupa, de cabelo, de estilos de cortes e de produtos capilares. Estavam todas a olhar para mim. Todas! Até mesmo as que estavam aparentemente de costas. Elas disfarçavam daquela forma que só as mulheres conseguem disfarçar, mas eu, marinheiro viajado no imprevisível e tormentoso oceano que é a psique feminina, sabia que era o foco das atenções. Mas de uma forma negativa, como se tivesse arrotado à mesa num jantar de gala ou dado um sonoro traque no meio duma qualquer aula.
Estranhamente, não parecia haver cabelos no chão. Não havia jornais desportivos, não se ouvia falar alto, ninguém discutia a arbitragem do jogo anterior, o próximo reforço ou o eventual despedimento do treinador. Até me ofereceram um café. Estabelecimento unisexo? Nem por sombras. Era eu contra o mundo. Bom, em abono da verdade era eu e o T. O T.! Como classificá-lo sem incorrer num excesso de homofobia? Metrosexual, mas daqueles que gosta de homens? Maneirento? Demasiado cheiroso e claramente sobre-penteado? Saiu do armário, saltou a vedação, virou boiola, emveadou? Bom, deixemos o T. tranquilo por algumas linhas. Ele voltará. Esta 1ª visita (sim, sim, é verdade que já lá voltei…) não terminou sem que antes me tivessem tirado uma foto. Sal na ferida, meus amigos, sal na ferida. Sorria, disse ela quando viu a minha cara de parvo a olhar para a máquina. Tentei, ou pelo menos tenho a vaga noção que os meus músculos se contraíram com essa intenção. Ela disse que tinha ficado muito bem. Não era preciso. Uma imagem vale mesmo muitas palavras, mesmo que não sejam mil, e afinal a máquina só apanha o que tem à frente.Como o difícil já estava feito, mergulhei de cabeça nesta nova experiência e dei o passo que me faltava. Comprei produtos! Um frasco de fortificante para aplicar de pipeta antes de deitar, vulgo estrume capilar, ao módico preço duma bela garrafa de vinho tinto e um champô ideal para o meu couro cabeludo. Suspirei fundo, cansado por este excesso de contacto com o meu lado feminino. De mãos nos bolsos e algo cabisbaixo, abri a porta do estabelecimento e saí. Cá fora estava sol.

(continua…)

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